PAN - UM NOVO PARADIGMA

Vivemos o fim de ciclo de um paradigma civilizacional esgotado, o paradigma antropocêntrico, cuja exacerbação nos últimos séculos aumentou a devastação do planeta, a perda da biodiversidade e o sofrimento de homens e animais. Impõe-se um novo paradigma, uma nova visão/vivência da realidade, ideias, valores e símbolos que sejam a matriz de uma nova cultura e de uma metamorfose mental que se expresse em todas as esferas da actividade humana, religiosa, ética, científica, filosófica, artística, pedagógica, social, económica e política. Esse paradigma, intemporal e novíssimo, a descobrir e recriar, passa pela experiência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Nesta visão holística da Vida, o ser humano não perde a sua especificidade, mas, em vez de se assumir como o dono do mundo, torna-se responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

Herdando a palavra grega para designar o "Todo", bem como o nome do deus da natureza e dos animais, o PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza - incarna esse paradigma na sociedade e na política portuguesas.

O objectivo deste blogue é divulgar e fomentar o debate em torno de contributos diversos, contemporâneos e de todos os tempos, para a formulação deste novo paradigma, nas letras, nas artes e nas ciências.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Que sentido para Portugal? Uma nova civilização, a panconsciência, consciência global: Nova Aliança homens-animais-Terra

Desde a fundação até hoje, Portugal tem vivido em busca de expansão externa, primeiro político-territorial e religiosa, a expansão da Fé e do Império, depois comercial e colonial. Primeiro o nosso horizonte foi África, depois o Oriente, a seguir o Brasil e finalmente a Europa. De colonizadores passámos a colonizados e hoje somos um território, um povo e uma cultura ocupados pela grande finança internacional, não só europeia e norte-americana, mas também chinesa, entre outras. Pouco ou nada nos resta, a não ser nós mesmos. E é de nós mesmos que temos de recomeçar, refundando uma nação e um novo tecido sócio-cultural e económico-ecológico a partir da consciência ética profunda e universal, que nada nem ninguém exclua, homens, animais e planeta. O velho Portugal está morto, mas um Outro Portugal ressurge nos mais conscientes de nós, que temos de dar tudo pelo novo grande imperativo: a expansão da consciência, uma Nova Aliança entre o homem, os seres vivos e a Terra, o abraço armilar ao que em todos os povos, nações e culturas haja de melhor e convergente para o mesmo fim. Foi isso que Luís de Camões, Padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva visionaram como o Quinto Império, um Império não do domínio, mas do espírito e da cultura. Uma nova civilização, não a da globalização económica, tecnocrática e mediática, mas a da consciência global. O novo grande desafio e imperativo, a imensa e Nova Descoberta, é a da expansão da consciência: a panconsciência.

O setembrista e as corridas de touros

A partir da primeira metade do século XIX, estas ideias [de defesa dos direitos dos animais] levaram à fundação de sociedades protetoras dos animais e à aprovação de leis contra a crueldade com estes. Portugal não foi excepção. A 19 de Setembro de 1836, Passos Manuel, então ministro do reino, aboliu as corridas de touros, por as considerar "um divertimento bárbaro e impróprio de nações civilizadas". Contudo, a medida só vigorou durante nove meses, sendo revogada pelas Cortes a 27 de Junho de 1837.

in Teixeira, L. H. (2012). Verdes anos: História do ecologismo em Portugal {1947—2011}. Lisboa: Esfera do Caos (p. 236).


Se, neste domínio, tivesse vigorado a inteligência e sensibilidade de Passos Manuel, teríamos hoje um Portugal mais compassivo e civilizado sem divertimentos bárbaros e impróprios de nações civilizadas.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

"Verdes Anos": o PAN já faz parte da história do ecologismo em Portugal



O livro Verdes Anos. História do ecologismo em Portugal (1947-2011), de Luís Humberto Teixeira (Lisboa, Esfera do Caos, 2011), será apresentado pelo Prof. Viriato Soromenho-Marques na 3ª feira, dia 31 de Janeiro, às 18.30, na Livraria Bulhosa de Entrecampos. Este livro dedica o capítulo 8 ao PAN e ao seu resultado surpreendente nas últimas eleições legislativas. Reproduzimos os três últimos parágrafos do livro, após se referir o historial de adversidade de Portugal e dos países do Sul da Europa aos ideais ecologistas:

"Perante este ambiente hostil, como se explica então o sucesso do PAN, que nas primeiras eleições legislativas a que concorreu obteve mais de 50 000 votos em listas próprias (feito inédito entre os partidos ecologistas portugueses) e quatro meses depois elegeu um deputado em eleições regionais?

Será um epifenómeno ou será que o segredo para o sucesso de um partido verde em Portugal passa por unir a defesa do ambiente aos direitos dos animais e às causas humanitárias?

Para responder a estas questões teremos de esperar mais algum tempo. Entretanto, uma coisa é certa: por mais negro que seja o cenário do país e do planeta, muitos acreditam que a cor da esperança ainda é o verde"

Cabe-nos mostrar que o "segredo" é mesmo esse e que o PAN veio para crescer e ficar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Quem é o meu próximo?

“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus, 22, 39). Quem é o meu próximo? Aquele que pertence ao mesmo grupo familiar, local, social, económico, nacional, étnico, cultural, linguístico, político ou religioso? Aquele que pertence à mesma espécie, ao mesmo planeta ou à mesma galáxia? Ou o meu próximo é aquele de quem me sentir próximo, ao ponto de o não sentir separado de mim nem a mim separado dele? O meu próximo tem então de ter duas pernas e dois braços ou pode ter quatro patas, muitas, nenhuma, caule, tronco, folhas, flores e frutos? Tem de ter cabelos e pele quase nua ou pode ter pêlos, penas, couraça, escamas e casca? Tem de viver sobre a terra ou pode rastejar dentro dela e voar e brilhar nos céus? Tem de ter uma vida individual ou pode ser a própria terra, as areias, as rochas, os minérios, as águas, os ventos, o fogo e as energias que em tudo isso habitam? Tem de falar a minha linguagem ou pode miar, ladrar, zumbir, uivar, cacarejar, grunhir, mugir, relinchar, rugir, trinar, grasnar, trovejar, soprar, relampejar, chover ou florir, frutificar, repousar e mover-se em silêncio? Tem de ter forma e ser visível ou pode não ter forma e ser invisível? Tem de ter vida consciente e senciente? Tem de ter vida? Tem de ser algum ser ou coisa ou pode ser tudo? A empatia, o sentir em si o outro como o mesmo, a compaixão, têm limites? Temos limites? Conhecemos a fronteira do que somos? Ou só o medo nos limita? O medo de tudo o que há. O medo do infinito e da vasta multidão que somos.

domingo, 22 de janeiro de 2012

"O homem não sabe mais que os outros animais; sabe menos. Eles sabem o que precisam saber. Nós não"



- Fernando Pessoa

Para uma ética da compaixão

"(...) o fenómeno quotidiano da piedade, desta participação totalmente imediata, sem nenhum segundo pensamento, primeiro nas dores de outrem, depois e em seguida na cessação, ou na supressão destes males, pois reside aí o fundo último de todo o bem-estar e de toda a felicidade. Esta piedade, eis o único princípio real de toda a justiça espontânea e de toda a verdadeira caridade. Se uma acção tem um valor moral, é na medida em que dela procede: a partir do momento em que tem outra origem, já não vale nada. Desde que esta piedade desperta, o bem e o mal de outrem tocam-me no coração tão directamente quanto me toca em geral o meu próprio bem, se não com a mesma força; entre este outro e eu, então, não há mais diferença absoluta.
(...) Nestes momentos, esta linha de demarcação, (...) que separa o ser do ser, apaga-se: o não-eu torna-se até certo ponto o eu"
- Schopenhauer, "O Fundamento da Moral".