PAN - UM NOVO PARADIGMA

Vivemos o fim de ciclo de um paradigma civilizacional esgotado, o paradigma antropocêntrico, cuja exacerbação nos últimos séculos aumentou a devastação do planeta, a perda da biodiversidade e o sofrimento de homens e animais. Impõe-se um novo paradigma, uma nova visão/vivência da realidade, ideias, valores e símbolos que sejam a matriz de uma nova cultura e de uma metamorfose mental que se expresse em todas as esferas da actividade humana, religiosa, ética, científica, filosófica, artística, pedagógica, social, económica e política. Esse paradigma, intemporal e novíssimo, a descobrir e recriar, passa pela experiência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Nesta visão holística da Vida, o ser humano não perde a sua especificidade, mas, em vez de se assumir como o dono do mundo, torna-se responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

Herdando a palavra grega para designar o "Todo", bem como o nome do deus da natureza e dos animais, o PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza - incarna esse paradigma na sociedade e na política portuguesas.

O objectivo deste blogue é divulgar e fomentar o debate em torno de contributos diversos, contemporâneos e de todos os tempos, para a formulação deste novo paradigma, nas letras, nas artes e nas ciências.

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terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Uma economia que destrói tudo


"(…) É uma economia do trabalho, da produção, (…) que toma conta da terra, das plantas, dos animais, dos homens, de tudo"

- Agostinho da Silva, Vida Conversável.

terça-feira, 19 de março de 2013

A fraternidade original segundo Agostinho da Silva



"Como se sabe, os gregos possuíam, com muitos outros povos da Antiguidade, a tradição de que em tempos remotos tinham os homens vivido num estado de perfeita inocência e numa felicidade só comparável à dos deuses; tratavam-se todos como irmãos, alimentavam-se de frutos das árvores. Desconheciam as disputas e a guerra; havia entre eles e a natureza uma completa comunhão, a tal ponto que nem mesmo distinguiam entre si próprios e o mundo que os rodeava; e poderiam ter prosseguido nesta existência beatífica se não se tivesse dado uma corrupção dos costumes, se da Idade do Ouro se não tivesse passado para a Idade de Ferro, a actual, em que todas as aberrações se tornaram normais na humanidade"

– Agostinho da Silva, A Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 301.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Uma economia "que toma conta da terra, das plantas, dos animais, dos homens, de tudo"

"(…) É uma economia do trabalho, da produção, (…) que toma conta da terra, das plantas, dos animais, dos homens, de tudo"

- Agostinho da Silva, Vida Conversável.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

"uma vida / já ressurrecta da morte"

"Se eu chegar a ser dum Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

terei decerto cumprido meu destino
e com que sorte
para gozar de uma vida
já ressurrecta da morte"

- Agostinho da Silva, "Uns Poemas de Agostinho", p.106.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Do sacrifício como símbolo da queda pelo consumo de carne de animais

"É possível que a princípio o sacrifício simbolizasse a queda por um alimento animal, a expiação da morte da primeira rês; por qualquer circunstância, o homem, primitivamente frugívoro, teria sido obrigado a alimentar-se com a carne de animais, até aí sagrados para ele; abatera o primeiro e logo sentira todo o horror do seu crime: matara um companheiro, um amigo, e o seu primeiro movimento foi de fuga; depois, para que os deuses lhe perdoassem, fazia-os tomar parte no festim. O rito estranho das Bufónias, antiquíssimo, reproduzia com pormenorização a cena primitiva: havia a fuga do sacrificador, a acusação de todos os que tinham tomado parte na cerimónia; finalmente, a condenação dos instrumentos que tinham servido para cometer o crime"

- Agostinho da Silva, A Religião Grega [1930], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 165.

Agostinho da Silva retoma aqui a tese de Teixeira Rego, seu professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Veja-se, de Teixeira Rego, a Nova Teoria do Sacrifício.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"Arregimentados, nos perderemos no melhor que somos: o ser irmão do mundo."

Conviria talvez que se experimentasse desde já um outro sistema, o de não haver partido algum. Partidos são sempre máquinas de agir e o que estava ao princípio não era a acção, mas o deleite das relações lógicas e o deleite da linguagem quanto possível matemática em que elas se exprimem. No partido, a intensa opinião se fragmenta e apuramos aquilo em que diferimos dos outros homens, não aquilo em que lhes somos irmãos; guiamo-nos por um ser geral que nos supera e por ele nos substituímos; vive em nós a tribo, muito mais do que a Humanidade. [...] Bom seria, por outro lado, que se defendesse o direito de se intervir na política, de se fazer política, sem pertencer a partido algum, criando-se condições eleitorais em que as máquinas partidárias não tivessem que entrar, nem se tivesse que pertencer ao governo para triunfar junto do povo. Uma política sem partidos, nem sequer o único, é a condição indispensável para que o Reino se instaure e para que, instaurado, seja. Acima de tudo, combatemos o que separa: e nao são as opiniões individuais, mas as opiniões de grupo, o que realmente separa homem de homem; arregimentados, nos perderemos no melhor que temos: o ser irmão do mundo.

Agostinho da Silva, Ecúmena, in Agostinho da Silva Textos e Ensaios Filosóficos II, Âncora Editora, pp.199-200

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

"Pã, o grande Pã morreu!"

S. F. Schedrin
"Gruta Matromanio na Ilha de Capri"
1827
Tela em óleo
Às vezes, porém, os pinheirais cantavam mais alto, em certas tardes havia sobre a terra uma paz e uma alegria maiores, o grego sentia mais vivo em torno de si o amor da Natureza; era difícil aceitar que as ninfas e os sátiros, tão amigos da liberdade, assim se tivessem concertado para que a um tempo soassem as suas flautas e se exercesse a sua acção benéfica. Decerto um deus, um grande deus, chegara até ali, um deus que resumia toda a intensa vida das florestas e dos montes; e esse deus era Pã, o que viera da Arcádia e excedia todos os Sátiros no tocar da flauta e no amor das Ninfas; Pã era também o deus das tranquilas sestas de Verão, quando, no adormecimento de todas as coisas, só as cigarras gritam estridentemente; e ai do pastor que acordar Pã ou do rebanho que passar junto dele, quando o deus repousa! Bastará que a sua voz ressoe para que tudo se precipite, louco de medo, num terror «pânico». Mas o grego sabe que não deve perturbar o sossego da Natureza, que a deve deixar dormir tranquila sob o sol que aquece - e que tudo cala na terra às horas do meio-dia; e a sesta de Pã não será perturbada.

sábado, 15 de janeiro de 2011

"Sejamos pobres e sejamos coisas - repito, ser coisas, não ter coisas."

E agora vamos lutar contra os dragões. O primeiro é o ideal de um produto bruto nacional sempre crescente e um sempre mais elevado nível de vida material. Neguemos tal ideal. O que queremos é que o produto nacional seja distribuído com justiça, isto é, com amor, e que a qualidade do nível de vida seja elevada. Como indivíduos podemos escolher ser pobres (não miseráveis, com certeza) e recusarmo-nos a comprar, passando para os outros o que é demasiado para nós. Empresas e governos querem que sejamos ricos e tenhamos coisas. Sejamos pobres e sejamos coisas - repito, ser coisas, não ter coisas.

Agostinho da Silva, Os Três Dragões, in Textos e Ensaios Filosóficos II, Lisboa, Âncora Editora, 1999, p.293