PAN - UM NOVO PARADIGMA

Vivemos o fim de ciclo de um paradigma civilizacional esgotado, o paradigma antropocêntrico, cuja exacerbação nos últimos séculos aumentou a devastação do planeta, a perda da biodiversidade e o sofrimento de homens e animais. Impõe-se um novo paradigma, uma nova visão/vivência da realidade, ideias, valores e símbolos que sejam a matriz de uma nova cultura e de uma metamorfose mental que se expresse em todas as esferas da actividade humana, religiosa, ética, científica, filosófica, artística, pedagógica, social, económica e política. Esse paradigma, intemporal e novíssimo, a descobrir e recriar, passa pela experiência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Nesta visão holística da Vida, o ser humano não perde a sua especificidade, mas, em vez de se assumir como o dono do mundo, torna-se responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

Herdando a palavra grega para designar o "Todo", bem como o nome do deus da natureza e dos animais, o PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza - incarna esse paradigma na sociedade e na política portuguesas.

O objectivo deste blogue é divulgar e fomentar o debate em torno de contributos diversos, contemporâneos e de todos os tempos, para a formulação deste novo paradigma, nas letras, nas artes e nas ciências.

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quinta-feira, 12 de julho de 2012

"Paulo Borges e a ética libertária" - entrevista ao jornal "A Batalha", conduzida por António Cândido Franco


1. João Freire, no livro de memórias que publicou em 2007, Pessoa Comum no seu Tempo (p. 437), cita-te ao lado do Carlos Fabião (hoje arqueólogo e prof. da Faculdade de Letras de Lisboa) como um dos jovens que apareciam por volta de 1975 na antiga sede do jornal A Batalha, na rua Angelina Vidal, no bairro da Graça, em Lisboa, e que foi a primeira que o periódico teve depois da Revolução dos Cravos. Queres recordar em poucas palavras a tua actividade desse tempo?

Foram bons tempos, que recordo com saudade. Tinha 15 anos e despertei de um sentimento de solidariedade com todos os povos oprimidos – que remonta à minha infância, em particular a respeito dos índios norte-americanos – para uma perfeita identificação com a visão da anarquia como a expressão suprema da ordem, numa sociedade livre de poder coercivo. Saíamos do Liceu Gil Vicente e íamos para a sede de A Batalha, fascinados por conhecer as histórias dos anarco-sindicalistas que combateram Salazar e os “comunistas” autoritários do PCP: o Emídio Santana, o Custódio e tantos outros… Foi aí que, com o Fabião e outros amigos, criámos o jornal “Não!”, órgão do Comité Anarquista Revolucionário Malatesta e integrámos a Associação de Grupos Autónomos Anarquistas. Montávamos bancas nas ruas, distribuíamos panfletos, organizávamos manifestações e comícios. Vivemos intensamente o frenesim de tudo ser possível, da política como meio de transformar a vida e a civilização, mas também o desencanto perante o conformismo e o medo que rapidamente domesticaram os portugueses. Incluindo nós próprios e os anarquistas, como mais tarde compreendi, pois queríamos mudar tudo sem primeiro nos mudarmos a nós próprios, como da sua juventude disse também Antero de Quental.

2. Em 2010 fundaste com Luiz Pires dos Reyes a revista Cultura ENTRE Culturas, que publicou até hoje quatro números. A publicação tem como objectivo a criação e o desenvolvimento de um novo paradigma cultural e civilizacional. Queres explicar que novo paradigma é esse?

Um paradigma holístico, que assuma a realidade como uma totalidade orgânica complexa, em que tudo está interconectado e não há seres isolados, mas entre-seres, feixes de relações e processos dinâmicos em constante mutação e simbiose. Um paradigma que sobreponha ao crescimento económico e tecnológico a expansão da consciência, a felicidade de todos os seres, humanos e não-humanos, e a harmonia ecológica. Um paradigma universalista, que promova o diálogo fraterno entre povos, nações, culturas e religiões, mas também entre religiosos, ateus e agnósticos. Um paradigma não-violento e libertador, que promova alternativas éticas e saudáveis em todas as áreas do conhecimento e da actividade humanos.
Interessa-nos promover este paradigma na cultura portuguesa e lusófona, cultivando as suas melhores tendências neste sentido.

3. No blogue da revista Cultura ENTRE Culturas está escrita a seguinte frase: O estado não-violento ideal será uma anarquia ordenada. (entrada de 8 de Maio de 2011). É assinada por Mahatma Gandhi. Queres comentar?

A realidade é an-árquica e caósmica, no sentido de ser uma totalidade autogerida que desconhece qualquer princípio exterior e absoluto e se apresenta como um dinamismo criador com todas as possibilidades a cada instante em aberto. A violência começa na sempre frustrada tentativa humana de domesticar o real mediante a ciência e a política, que determinaram a orientação predominante da razão grega, matriz da cultura ocidental. A não-violência a que aspiramos só é possível quando as comunidades humanas redescobrirem a ordem natural e imanente do mundo, livre de dominadores e dominados. Mas isto só é possível mediante uma profunda transformação da consciência e da ética, pela qual o homem se liberte da ficção da dualidade e seja capaz de reconhecer o mundo e todos os seres vivos como inseparáveis de si mesmo, agindo em consequência.

4. Qual o papel do património libertário e sobretudo da sua ética de vida – entre nós pode servir de referência uma figura como A. Gonçalves Correia (1886-1967), discípulo do neo-franciscanismo de Tolstói – no novo paradigma civilizacional a que te referes?

O património libertário, quando se liberta do antropocentrismo e se torna verdadeiramente libertador, é fundamental. Vejo figuras como Gonçalves Correia, autor da conferência e opúsculo A Felicidade de Todos os Seres na Sociedade Futura, como exemplos desse paradigma intemporal e futuro. Ser vegetariano, desviar a bicicleta para não esmagar as formigas, esperar que elas saíssem da bacia para lavar a cara, são exemplos dessa ética do respeito integral por todas as formas de vida de que carecemos urgentemente num planeta em que, devido às acções humanas, mais de 300 espécies animais e vegetais se extinguem diariamente. Com elas é uma parte de nós que a cada dia também morre. Não faz sentido proclamar-se libertário e defensor da igualdade sem estender esse igualitarismo a todos os seres. Sem isso, ficamos reféns da discriminação especista, afim ao racismo, ao sexismo e ao esclavagismo. Na cultura portuguesa, vejo outros ilustres exemplos do novo paradigma em Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, José Marinho e Agostinho da Silva, entre outros.

5. Em 2009 fundaste o Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN) e és hoje o seu principal animador. Tens consciência das limitações da vida política numa democracia condicionada pelos interesses clientelares dos partidos ou acreditas que os partidos políticos são a melhor e a mais apurada expressão da participação popular na vida pública?

Tenho plena consciência dessas limitações e na verdade é para mim num certo sentido paradoxal ter colaborado na fundação de um partido e ser hoje o seu presidente, quando sempre fui crítico do sectarismo partidário e da partidocracia. A questão é que eu e a maioria dos seus membros e apoiantes vemos precisamente o PAN como um partido diferente, o partido daqueles que tomam partido pelo todo e não pela parte, um partido não partido, integral e global, “pelo bem de tudo e de todos”, como gostamos de dizer. Um partido não em busca do poder, mas de lutar por causas éticas e justas, sobretudo aquelas que são silenciadas ou desprezadas pelos governos, pelos outros partidos e pela própria sociedade. Um partido que não se foca só nos homens, mas que estende a consideração ética a todos os seres vivos e à Terra. Um partido que se dirige fundamentalmente aos que não se revêem no actual sistema político-partidário e que se abstêm ou votam branco ou nulo.

6. O PAN concorreu às eleições legislativas de 2011 obtendo mais de cinquenta mil votos, ficando perto de eleger um representante por Lisboa; mais recentemente, nas regionais da Madeira, elegeu um representante e foi mais votado que o Bloco de Esquerda. É previsível que o grupo – aceitando que ele tem possibilidades de ocupar o espaço do ecologismo que nunca teve entre nós representação política autónoma – venha a ter um lugar institucional importante. Que novidade poderá trazer o PAN à política portuguesa e sobretudo ao desenvolvimento dum novo comportamento social que se mostre uma alternativa ao actual paradigma civilizacional?

Na verdade, poucos meses após a nossa formalização, sem qualquer experiência, sem recursos, numa circunstância política adversa e silenciados pela comunicação social, obtivemos quase 58 000 votos e eu estive à beira de ser eleito por Lisboa. Pouco depois conseguimos eleger o Rui Almeida na Madeira e sentimos que temos todas as condições para crescer e conseguir em breve mais deputados. Creio que o PAN já é a grande novidade na política portuguesa desde o 25 de Abril de 1974, na medida em que trouxe para a agenda da discussão pública grandes questões do mundo contemporâneo a que as demais forças políticas têm estado alheias, como os direitos dos animais, o impacto ambiental do consumo de carne, a insustentabilidade do actual modelo de crescimento económico, a crise de valores como a causa da crise económico-financeira, a necessidade de substituir o Produto Interno Bruto pela Felicidade Interna Bruta, etc. Vejo o PAN como um catalisador de alternativas mais éticas, justas e saudáveis em todos os domínios: transitar da democracia representativa para uma democracia mais participativa ou directa, transitar da economia de mercado para uma economia baseada em recursos, promover a descentralização e a produção e consumo locais, incentivar a agricultura biológica e a permacultura, promover uma consciência ética global e as técnicas de atenção plena nos vários níveis de ensino, integrar as medicinas alternativas ou terapias não convencionais no Sistema Nacional de Saúde, rever o sistema eleitoral e assegurar a possibilidade de concorrerem listas de cidadãos independentes, consagrar a senciência dos animais na Constituição da República e no Código Civil, etc. Vejo o PAN como a voz política do espírito libertário e libertador de muitos dos movimentos de cidadãos que hoje proliferam, mas que se arriscam a perder impacto se não se unirem e coordenarem. Há que fazer convergir todos aqueles que, defendendo os homens, os animais ou a Terra, estão já a criar um Mundo Novo.

- Entrevista conduzida por António Cândido Franco, em 2 de Maio de 2012, e publicada no jornal A Batalha, nº 250, VI Série, Ano XXXVIII, editado pelo Centro de Estudos Libertários.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Colocar-se no lugar do outro (artigo mensal de Paulo Borges na revista CAIS)

Num recente, inspirador e esclarecedor livro, Doze passos para uma vida solidária, Karen Armstrong mostra que o grande desafio para que indivíduos e povos possam viver hoje em harmonia numa comunidade global passa pela aplicação da Regra de Ouro de toda a ética, presente nas grandes tradições espirituais da humanidade e hoje também um imperativo laico: “Não fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem” e “Fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem”. Isso implica a experiência de se colocar no lugar do outro, a experiência da em-patia ou da com-paixão, que não é um mero e ocasional ter pena emocional e condescendente, mas antes um abandonar a gravitação em torno de si mesmo para ser capaz de ver e sentir o mundo como o outro o vê e sente. É uma experiência de descentramento, de desobstrução do espaço ocupado pelo ego, individual ou colectivo, para constantemente sentir em si o que o(s) outro(s) sente(m), dores ou alegrias.

Em termos evolutivos, é a possibilidade aberta pelo surgimento do neocórtex, que nos permite a reflexão e o distanciamento dos instintos herdados no hipotálamo, procedentes dos primitivos répteis, há 500 milhões de anos, e designados como os 4 Fs: “feeding, fighting, fleeing e f… (alimentação, luta, fuga e “reprodução”). Todavia, se olharmos para a humanidade, ou seja, para nós mesmos, não deixa de ser incómodo e doloroso ver como em tantos aspectos da nossa vida pública e privada continuamos a comportar-nos como esses velhos répteis, dominados pelo complexo da presa-predador, pelo medo que leva à fuga e ao ataque, pela luta desenfreada por sobrevivência, por território, por ganho e por reprodução física e comportamental. É isto que no fundo explica o estado crítico em que está o mundo: a rápida evolução científica e tecnológica não foi acompanhada por uma igual evolução ética, mental e espiritual, fazendo com que indivíduos, grupos e nações ainda sujeitos aos mais primitivos instintos e emoções detenham sofisticados mecanismos de opressão, exploração e destruição militar e económica; temos hoje uma civilização global, em termos económico-tecnológicos, mas não uma consciência ética global.

Uma outra potencialidade reside todavia em nós, a do neocórtex e algo mais: o espírito ou a natureza profunda da mente. As suas qualidades naturais são a consciência global e a empatia amorosa e compassiva. São elas que nos permitem colocar-nos no lugar do outro, de todo o outro, não só dos nossos familiares e amigos ou membros do mesmo grupo, clube, empresa, partido, nação, religião ou espécie. São elas que, ao contrário dos velhos répteis que ainda somos, nos permitem alargar progressivamente o círculo dos nossos afectos e consideração moral, ao ponto de amar os nossos próximos como a nós mesmos, não deixando fora da categoria do próximo os nossos inimigos nem os membros de outras espécies, abrangendo ainda o mundo natural que é fonte comum da nossa vida. São elas que nos permitem experimentar dor e alegria com todos os que sofrem e são felizes e não sermos indiferentes aos pobres, doentes e sem abrigo, aos que padecem fome e sede, aos que são explorados, oprimidos, torturados, violentados e mortos, sejam humanos ou animais. É a nossa natureza profunda, à medida que se for libertando de parcialidades, que nos permite sentir igualmente a dor do desempregado, do sem abrigo, do porco, frango ou vaca no matadouro e do touro na arena. Simplesmente porque é dor, independentemente da forma e do aspecto de quem a sente. E é a nossa natureza profunda que nos permite sentir ainda compaixão por todos os que, por ignorância, avidez e ódio, são responsáveis pelas dores dos outros e pela doença que trazem em si mesmos, transmutando a revolta e a raiva em luta não-violenta contra essas acções.

É do cultivo dessa consciência ética global, abrangente de homens, animais e planeta, que depende a saída desta crise e o surgimento de uma nova civilização. Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. O seu desenvolvimento, em todas as esferas da vida pública e privada, sobretudo por via da educação, tem de ser o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de todo o governo que venha a ser digno desse nome. Enquanto se colocar a economia e as finanças acima da sabedoria, da compaixão e de leis que as expressem, a produção de riqueza será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o vai afectar, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em risco de extinção.

(artigo de Paulo Borges, publicado no nº de Fevereiro de 2012 da revista CAIS, na secção "Cultura ENTRE Culturas")

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Partido pelos Animais e pela Natureza é legal

O Tribunal Constitucional considerou legal a criação do novo Partido pelos Animais e pela Natureza, adiantou à Lusa o membro da comissão coordenadora Paulo Borges.
 
foto http://pan-sintra.blogspot.com
Partido pelos Animais e pela Natureza é legal
Paulo Borges, do PAN
 
No acórdão, datado de 13 de Janeiro, a que a agência Lusa teve acesso, o Tribunal Constitucional (TC) considera "verificada a legalidade da constituição" e decide "deferir o pedido de inscrição, no registo próprio existente no Tribunal", do partido político e da sigla "PAN".
O parecer do TC chega mais de um ano após a entrega, a 4 de Dezembro de 2009, de 9.259 assinaturas a pedir a criação do novo partido.
Em declarações à Lusa, Paulo Borges, da comissão coordenadora do novo partido, afirmou que a constituição do PAN é "um marco histórico e a grande novidade desde o 25 de Abril".
O PAN assume-se como "o primeiro partido ecologista realmente independente" e, segundo Paulo Borges, tem "uma forte base social de apoio", entre "simpatizantes e pré-inscritos", nas "dezenas de associações animalistas e ecologistas" e através da rede social Facebook.
"O partido não depende apenas dos interesses dos seres humanos, mas tem uma perspectiva global sobre a realidade e sobre a importância de uma mudança na forma como o homem se relaciona com o meio ambiente", afirmou o responsável.
Dias depois das eleições presidenciais, o PAN considera que a democracia portuguesa "vive um momento extremamente crítico", visível nomeadamente na abstenção elevada, mas também na quantidade de votos brancos e nulos verificados.
Para Paulo Borges, a maior abstenção de sempre traduz "uma descrença em relação à vida política" ou "uma forma de protesto" do eleitorado, que "não se reconhece no actual quadro político".
Também "a votação bastante expressiva" em candidatos considerados "fora" do sistema político" -- como Fernando Nobre ou José Manuel Coelho -- mostra que existe "uma franja considerável" de eleitores que "não se reconhece no actual sistema e quer uma alternativa".
Além de preocupar-se com o "especismo" - criticando a forma "eticamente inaceitável" como o homem trata os animais, nomeadamente na "indústria da carne" - o PAN diz ainda ter preocupação "com as questões humanas", defendendo uma "melhor justiça social e uma economia de mercado virada para o equilíbrio ecológico".
Os promotores do PAN apresentam esta quinta-feira o novo partido, com sede em Carnaxide.

fonte: http://www.jn.pt/PaginaInicial/Nacional/Interior.aspx?content_id=1767132&page=-1

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Apocalypse now"

Os grandes, terríveis e massivos campos de concentração dos animais de criação, o horror dos aviários, onde centenas e milhares de vidas são chocadas, nutridas e engordadas, aos montes, à força e à pressa, umas em cima das outras, sempre expostas à luz, sem dormir, para logo serem levadas, ainda aos magotes, espezinhando-se umas às outras, para o abate! O horror das galinhas e dos perus, degolados e ainda a correrem, sem cabeça! Dos porcos, aos guinchos, de patas atadas, voltados ao contrário para serem esventrados por facas afiadas! Ou arrastados aos montes, por passadeiras mecânicas, para máquinas que lhes apertam e partem os ossos, antes de serem erguidos e suspensos, pelo pescoço, ainda vivos, por agudos ganchos metálicos! Tudo para acabarem, retalhados aos bocados, nos talhos, em embalagens assépticas, nas prateleiras dos supermercados ou em fumegantes, atraentes e apetitosos pratos nas mesas das casas e dos restaurantes. Para alegria de quem despreocupadamente os devora, unicamente interessado no prazer que daí tira, sem saber ou querer saber de toda a dor oculta por detrás de cada garfada. E para lucro das empresas que não recuam perante a macabra publicidade das carnes mortas camuflando a imagem das vítimas estilizada como fofinhos «glu-glus», «quá-quás» e «mé-més».

Paulo Borges, Línguas de Fogo, Ésquilo, 2006, pp.252-253