PAN - UM NOVO PARADIGMA

Vivemos o fim de ciclo de um paradigma civilizacional esgotado, o paradigma antropocêntrico, cuja exacerbação nos últimos séculos aumentou a devastação do planeta, a perda da biodiversidade e o sofrimento de homens e animais. Impõe-se um novo paradigma, uma nova visão/vivência da realidade, ideias, valores e símbolos que sejam a matriz de uma nova cultura e de uma metamorfose mental que se expresse em todas as esferas da actividade humana, religiosa, ética, científica, filosófica, artística, pedagógica, social, económica e política. Esse paradigma, intemporal e novíssimo, a descobrir e recriar, passa pela experiência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Nesta visão holística da Vida, o ser humano não perde a sua especificidade, mas, em vez de se assumir como o dono do mundo, torna-se responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

Herdando a palavra grega para designar o "Todo", bem como o nome do deus da natureza e dos animais, o PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza - incarna esse paradigma na sociedade e na política portuguesas.

O objectivo deste blogue é divulgar e fomentar o debate em torno de contributos diversos, contemporâneos e de todos os tempos, para a formulação deste novo paradigma, nas letras, nas artes e nas ciências.

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segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ética e ecologia


“[…] tanto a ética como a ecologia pressupõem um habitar, no primeiro caso, humano, no segundo inerente a todos os seres vivos, que se dá num solo comum - a natureza e o mundo – e que se constitui mediante a relação mútua entre aqueles que habitam, mediada pela instância onde habitam. A questão está em saber se a semelhança deverá ou não ser levada até à identidade, ou seja, se a ética se deverá reduzir à ecologia e o homem ao estatuto de um qualquer outro ser natural, como pretende a “ecologia profunda”, ou se este, de algum modo, transcende a economia do todo, reclamando, para si, um estatuto à parte.

Mais uma vez, é a categoria de responsabilidade que permite resolver este dilema acerca do tópos humano, dado que apenas enquanto responsável pode o homem habitar na natureza e cohabitar com os outros seres vivos, ao mesmo tempo que a transcende, de modo a decidir sobre a melhor forma de preservar harmoniosamente essa cohabitação”

- Cristina Beckert, Ética, Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, 2012, pp.153-154.

terça-feira, 25 de junho de 2013

"Importa construir um novo ethos que permita uma nova convivência entre os humanos com os demais seres da comunidade biótica, planetária e cósmica"


“Em momentos críticos como os que vivemos, revisitamos a sabedoria ancestral dos povos e nos colocamos na escola de uns e outros. Todos nos fazemos aprendizes e aprendentes. Importa construir um novo ethos que permita uma nova convivência entre os humanos com os demais seres da comunidade biótica, planetária e cósmica; que propicie um novo encantamento face à majestade do universo e à complexidade das relações que sustentam todos e cada um dos seres”


- Leonardo Boff, Saber Cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra, Petrópolis, Editora Vozes, 2011, p.27.

sábado, 3 de novembro de 2012

Abandonar o antropocentrismo

"As necessidades, desejos e caprichos dos seres humanos não são a única base para tomar decisões éticas. Creio que temos boas razões para abandonar o antropocentrismo exclusivo que pesou sobre demasiadas tradições morais no passado e reconhecer que os demais seres vivos têm, na mesma medida que nós, direito a existir e a levar uma boa vida. Na minha opinião, há-de ver-se no florescimento de todos os seres vivos, cada um deles com o seu conjunto de capacidades e vulnerabilidades intrínsecas, a sede primária do valor"

- Jorge Riechmann, Interdependientes y Ecodependientes. Ensayos desde la ética ecológica (y hacía ella), Proteu, 2012, p.256.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Colocar-se no lugar do outro (artigo mensal de Paulo Borges na revista CAIS)

Num recente, inspirador e esclarecedor livro, Doze passos para uma vida solidária, Karen Armstrong mostra que o grande desafio para que indivíduos e povos possam viver hoje em harmonia numa comunidade global passa pela aplicação da Regra de Ouro de toda a ética, presente nas grandes tradições espirituais da humanidade e hoje também um imperativo laico: “Não fazer aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem” e “Fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem”. Isso implica a experiência de se colocar no lugar do outro, a experiência da em-patia ou da com-paixão, que não é um mero e ocasional ter pena emocional e condescendente, mas antes um abandonar a gravitação em torno de si mesmo para ser capaz de ver e sentir o mundo como o outro o vê e sente. É uma experiência de descentramento, de desobstrução do espaço ocupado pelo ego, individual ou colectivo, para constantemente sentir em si o que o(s) outro(s) sente(m), dores ou alegrias.

Em termos evolutivos, é a possibilidade aberta pelo surgimento do neocórtex, que nos permite a reflexão e o distanciamento dos instintos herdados no hipotálamo, procedentes dos primitivos répteis, há 500 milhões de anos, e designados como os 4 Fs: “feeding, fighting, fleeing e f… (alimentação, luta, fuga e “reprodução”). Todavia, se olharmos para a humanidade, ou seja, para nós mesmos, não deixa de ser incómodo e doloroso ver como em tantos aspectos da nossa vida pública e privada continuamos a comportar-nos como esses velhos répteis, dominados pelo complexo da presa-predador, pelo medo que leva à fuga e ao ataque, pela luta desenfreada por sobrevivência, por território, por ganho e por reprodução física e comportamental. É isto que no fundo explica o estado crítico em que está o mundo: a rápida evolução científica e tecnológica não foi acompanhada por uma igual evolução ética, mental e espiritual, fazendo com que indivíduos, grupos e nações ainda sujeitos aos mais primitivos instintos e emoções detenham sofisticados mecanismos de opressão, exploração e destruição militar e económica; temos hoje uma civilização global, em termos económico-tecnológicos, mas não uma consciência ética global.

Uma outra potencialidade reside todavia em nós, a do neocórtex e algo mais: o espírito ou a natureza profunda da mente. As suas qualidades naturais são a consciência global e a empatia amorosa e compassiva. São elas que nos permitem colocar-nos no lugar do outro, de todo o outro, não só dos nossos familiares e amigos ou membros do mesmo grupo, clube, empresa, partido, nação, religião ou espécie. São elas que, ao contrário dos velhos répteis que ainda somos, nos permitem alargar progressivamente o círculo dos nossos afectos e consideração moral, ao ponto de amar os nossos próximos como a nós mesmos, não deixando fora da categoria do próximo os nossos inimigos nem os membros de outras espécies, abrangendo ainda o mundo natural que é fonte comum da nossa vida. São elas que nos permitem experimentar dor e alegria com todos os que sofrem e são felizes e não sermos indiferentes aos pobres, doentes e sem abrigo, aos que padecem fome e sede, aos que são explorados, oprimidos, torturados, violentados e mortos, sejam humanos ou animais. É a nossa natureza profunda, à medida que se for libertando de parcialidades, que nos permite sentir igualmente a dor do desempregado, do sem abrigo, do porco, frango ou vaca no matadouro e do touro na arena. Simplesmente porque é dor, independentemente da forma e do aspecto de quem a sente. E é a nossa natureza profunda que nos permite sentir ainda compaixão por todos os que, por ignorância, avidez e ódio, são responsáveis pelas dores dos outros e pela doença que trazem em si mesmos, transmutando a revolta e a raiva em luta não-violenta contra essas acções.

É do cultivo dessa consciência ética global, abrangente de homens, animais e planeta, que depende a saída desta crise e o surgimento de uma nova civilização. Só a cultura da visão global, do amor e da compaixão pode salvar o mundo. O seu desenvolvimento, em todas as esferas da vida pública e privada, sobretudo por via da educação, tem de ser o maior imperativo e investimento de cada um de nós e de todo o governo que venha a ser digno desse nome. Enquanto se colocar a economia e as finanças acima da sabedoria, da compaixão e de leis que as expressem, a produção de riqueza será sempre para benefício de poucos e prejuízo da maioria. Enquanto se colocarem interesses de indivíduos e grupos de uma só espécie acima do bem comum da Terra e de todos os seres, enquanto não nos colocarmos no lugar do outro antes de cada pensamento, palavra e acção que o vai afectar, continuaremos a ser velhos répteis, grotescamente sofisticados em termos científico-tecnológicos, mas 500 milhões de anos atrasados e em risco de extinção.

(artigo de Paulo Borges, publicado no nº de Fevereiro de 2012 da revista CAIS, na secção "Cultura ENTRE Culturas")

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

A Ética e a Política

As reflexões que agora reduzo a escrito foram espoletadas pela presença na manifestação de ontem contra a venda da EDP [a uma empresa tutelada pelo governo chinês] e a favor de ética na política, na qual participei.

A exigência de ética política pode parecer um lirismo ingénuo e irracional, nos tempos que correm e na nossa sociedade utilitarista e economicista, onde está implícito que a ética seja última das preocupações.

Não pensamos assim. Pelo contrário, entendemos que a ética deve ser a primeira de todas as considerações, por marcar a mais importante de todas as fronteiras e o critério de avaliação das escolhas políticas e dos seus actores.

Como ficou claramente esclarecido, não se ataca minimamente o povo da China, e muito menos a sua respeitabilíssima cultura multimilenar - estando apenas em causa as práticas do actual governo chinês e a decisão do governo Português na venda de capital da EDP. Por isso mesmo, tem especial cabimento citar um grande sábio da China ancestral (Confúcio): “Já vi pessoas incapazes da ciência; mas nunca vi nenhuma incapaz da virtude”.

Ora, antes de exigirmos que as acções políticas sejam competentes e tecnicamente eficazes, há que esperar que sejam virtuosas, de acordo com valores éticos. A competência técnica destituída de princípios, de valores, pode levar às criações mais hediondas, como a história nos mostra claramente (e, de resto, o actual sistema chinês é disso exemplo manifesto).

Não basta, é certo, a boa intenção, sem um conhecimento adequado e sem uma actuação lúcida. Mas muito pior ainda, e de todo inaceitável, por nos expor (a tudo e a todos) aos riscos mais extremos, são as decisões que ignoram e espezinham a ética, convivendo sem consciência com os que são capazes das maiores violências, atrocidades e desrespeitos para com a Vida.

Tal certamente, é o caso do regime chinês, que tem uma reiterada prática de desrespeito pelos direitos e valores fundamentais, de perseguições, de crimes e de intolerância para quem se desvia um pouco do que é ditado como “doutrina oficial”. Em termos externos, há décadas que vai sujeitando à sua tirania e a abusos e arbitrariedades de todo o género, um país e um povo inteiro – o do Tibete –, prosseguindo sistemática e implacavelmente o genocídio da sua população e da sua cultura – apesar de esta ser reconhecidamente pacífica e gentil.

Só a completa despreocupação com a ética é que permite negócios com um governo que está a promover uma outra invasão, à escala global, dominando os recursos económicos de inúmeras nações, quase continentes inteiros. Perante isto, as ditas democracias liberais permanecem indiferentes, cabendo-nos perguntar se só despertarão quando os pesadelos que agora atormentam alguns menos imediatistas no seu pensamento se tiverem volvido em realidades brutais. Mas onde não ética, até as incoerências parecem não envergonhar. É assim que essas democracias liberais (e capitalistas), que outrora censuravam o regime chinês, agora podem com ele andar de braço dado. É assim, também, que se pedem (exigem!) sacrifícios, poupanças e restrições ao consumo, quando jamais se censurou, antes se admiram com fascínio, os incentivos ao consumismo. É assim, igualmente, que o regime socialista-comunista chinês desenvolve o mais formidável e agressivo sistema capitalista. Tudo, sempre, orientado para “sacar”.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

"A economia tende a absorver toda a ética..."

"As políticas económicas absorvem quase por inteiro a atenção dos governos e tornam-se, ao mesmo tempo, cada vez mais impotentes. (...) Quanto mais rica é uma sociedade, menos possível se torna para ela a produção de coisas de valor, sem uma retribuição imediata. A economia tornou-se de tal modo escravizante que absorve quase integralmente a política externa. As pessoas dizem, "Ah, pois, nós não gostamos dessa gente, mas estamos economicamente dependentes deles e, por isso, temos de lhes fazer as vontades". A economia tende a absorver toda a ética e a tomar procedência sobre todas as outras considerações humanas. Ora é bem claro que isto é um desenvolvimento patológico (...)"
- E. F. Schumacher, "Small is beautiful", Lisboa, Dom Quixote, 1985, 2a edição, p.62.

sábado, 26 de março de 2011

"Porque exigir um máximo de lucros (económicos), quando isso supõe arcar com um máximo de custos (sociais ou ecológicos)?"



“A razão de ser da actividade económica é garantir as condições básicas da vida humana. E será necessária a “maximização dos lucros” para a sobrevivência humana? […] A busca do lucro está decerto justificada do ponto de vista ético sempre que fiquem a salvo outros valores superiores, porém isto de modo algum justifica eticamente a maximização dos lucros como princípio da política económica. Porque exigir um máximo de lucros (económicos), quando isso supõe arcar com um máximo de custos (sociais ou ecológicos)?

• Um novo ordenamento da economia mundial requer uma ética de responsabilidade de economistas realistas com um horizonte idealista. Esta ética pressupõe, também na economia, sentimentos, ideais e valores, porém questiona-se de forma realista pelas consequências previsíveis, em particular as negativas, das decisões económicas e responsabiliza-se por elas.

• Na era pós-moderna, uma actuação económica responsável consiste em estabelecer um vínculo sério entre as estratégias económicas e o juízo ético.

• Este novo paradigma de ética económica concretiza-se na medida em que – admitida a legitimidade do lucro – submete a actuação económica à prova de se lesa bens ou valores superiores, ou se tem suficientemente em conta a realidade social e ambiental e também o futuro. Dado que não resulta nada fácil submeter os casos concretos a esta prova argumentativa de verificação ética, tornam-se necessários ordenamentos políticos específicos”

- Hans Küng, Weltethos für Weltpolitik und Weltwirtschaft [Uma ética mundial para a política mundial e a economia mundial], 1997.

terça-feira, 1 de março de 2011

"A ética é a responsabilidade por tudo quanto vive, estendida além de todos os limites"



"O homem só é verdadeiramente ético quando obedece a necessidade de ajudar a toda vida a que pode ajudar e se envergonha de causar dano a todo e qualquer ser vivo. Ele não se pergunta até onde esta ou aquela vida tem valor para merecer participação, nem se, ou até onde, ela ainda é capaz de sentir. Para ele a vida em si é santa. Não arranca nenhuma folha das árvores, não quebra uma flor, e toma cuidado para não pisar nenhum inseto. Quando no verão trabalha à noite à luz da lâmpada, prefere manter a janela fechada e respirar um ar pesado a ver os insetos caírem um após o outro na sua mesa com as asas chamuscadas.

Quando após a chuva caminha pela estrada e vê a minhoca que se extraviou, ele se lembra de que ela terá que secar ao sol se não tiver tempo de encontrar terra em que possa esconder-se, e retira-a da pedra mortífera para a grama. Quando passa por um inseto que caiu numa poça, ele trata de estender-lhe uma folha ou um talo a fim de o salvar

Não teme que zombem dele como sentimental. É este o destino de toda a verdade, que antes de ser reconhecida ela seja objeto de riso. Antes passava por loucura admitir que os homens de cor seriam verdadeiros homens, e que teriam que ser tratados humanamente. A loucura passou a ser sabedoria. Hoje é considerado como um exagero estender até suas formas ínfimas a contínua atenção a todo ser vivo, como uma exigência da ética racional. Mas há de chegar o dia em que se há de julgar estranho que a humanidade tenha precisado tanto tempo para entender o dano inconsiderado à vida como incompatível com a ética.

A ética é a responsabilidade por tudo quanto vive, estendida além de todos os limites"

- Albert Schweitzer, A ética da veneração diante da vida (1955), in Leonardo Boff (com a colaboração de Werner Müller), Princípio de Compaixão e Cuidado. O encontro entre Ocidente e Oriente, Petrópolis, Vozes, 2000, pp.88-89.