PAN - UM NOVO PARADIGMA

Vivemos o fim de ciclo de um paradigma civilizacional esgotado, o paradigma antropocêntrico, cuja exacerbação nos últimos séculos aumentou a devastação do planeta, a perda da biodiversidade e o sofrimento de homens e animais. Impõe-se um novo paradigma, uma nova visão/vivência da realidade, ideias, valores e símbolos que sejam a matriz de uma nova cultura e de uma metamorfose mental que se expresse em todas as esferas da actividade humana, religiosa, ética, científica, filosófica, artística, pedagógica, social, económica e política. Esse paradigma, intemporal e novíssimo, a descobrir e recriar, passa pela experiência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Nesta visão holística da Vida, o ser humano não perde a sua especificidade, mas, em vez de se assumir como o dono do mundo, torna-se responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

Herdando a palavra grega para designar o "Todo", bem como o nome do deus da natureza e dos animais, o PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza - incarna esse paradigma na sociedade e na política portuguesas.

O objectivo deste blogue é divulgar e fomentar o debate em torno de contributos diversos, contemporâneos e de todos os tempos, para a formulação deste novo paradigma, nas letras, nas artes e nas ciências.

Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Riechmann. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Riechmann. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

“[...] a questão é: ou salvar a Terra ou fazer bons negócios. Trata-se de uma disjunção exclusiva: ambas as propostas não são simultaneamente viáveis"



“[...] a questão é: ou salvar a Terra ou fazer bons negócios. Trata-se de uma disjunção exclusiva: ambas as propostas não são simultaneamente viáveis.

O desajuste último, o que condena de forma inapelável este sistema económico – o capitalismo que precisa de uma expansão constante, ainda que se encontre dentro de uma biosfera finita - , é uma ideia errada: tratar de viver dentro de um planeta esférico e limitado como se se tratasse de uma Terra plana e ilimitada.
Como se os recursos naturais fossem infinitos, como se a entropia não existisse, como se nós, seres humanos, fôssemos omnipotentes e imortais.
[…]
Basta fazer contas durante dez minutos para sabermos que esta civilização está condenada. […]
E o capitalismo persegue um valor de produção comensurável com o reembolso da dívida… Puro wishful thinking: porém a semelhantes disparates se subordinam as políticas e as vidas humanas (tal como as não humanas, claro está) sob o domínio do capital.
Endividar-se para crescer e crescer para pagar as dívidas: assim se ligam capitalismo financeiro e devastação ecológica.
Não há no planeta Terra recursos naturais suficientes para pagar a dívida emitida, acumulada, aceitada. Essa montanha de dinheiro virtual há-de ser denunciada (a banca privada é uma das instituições que não podemos permitir-nos numa sociedade sustentável).
Um sistema sócio-económico que só sabe abordar a realidade – as realidades – em termos de rentabilidade e benefício está condenado. Isto é óbvio […].
Continuar a pensar hoje em termos de business as usual – mais crescimento do consumo para que estique a produção; mais aumento da produção para incrementar o consumo; mais endividamento para crescer mais; mais crescimento para pagar a dívida – é equivalente a sermos crianças de 35 anos que esperneiam no chão: não é verdade, não pode ser, o Pai Natal existe, não são os pais!
Porém já vamos sendo cresciditos, não é verdade!? Já se nos pode dizer que o Pai Natal são os pais? E que o “desenvolvimento sustentável” baseado num suposto desajuste (decoupling) entre crescimento económico e impacto ambiental é engano dos poderosos ou autoengano?”

- Jorge Riechmann, Interdependientes y Ecodependientes, 2012, pp. 425-427.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"[...] definição breve de desenvolvimento sustentável: vida boa dentro dos limites dos ecossistemas”


“O grande economista Kenneth Boulding já há muitos anos sugeriu que o PIB (Produto Interno Bruto) deveria considerar-se antes uma medida do custo interior bruto e que uma sociedade racional num planeta finito deveria orientar os seus esforços para minimizar este indicador, não para maximizá-lo. Minimizar o PIB – que mede as trocas mercantis – quer dizer: desmercantilizar.

A ruptura cultural decisiva, a que hoje necessitamos, tem de apontar contra a mercantilização generalizada, o produtivismo e o desenvolvimentismo. Tratar-se-ia de quebrar a identificação entre progresso e crescimento económico (produção de bens e serviços mercantis) […]. Necessitamos menos horas de trabalho, menos coisas, menos competição destrutiva, menos stress, menos desigualdade; e também mais cooperação, mais segurança existencial, mais democracia, mais tempo para a família e os amigos, mais tempo livre, mais festa… Precisamos que a qualidade (da vida, dos vínculos sociais, dos ecossistemas) prevaleça sobre a quantidade: uma concepção do progresso “pós-desenvolvimentista”, que teria de coincidir com a seguinte definição breve de desenvolvimento sustentável: vida boa dentro dos limites dos ecossistemas”

- Jorge Riechmann, Interdependientes y Ecodependientes, 2012, p.365.

domingo, 25 de novembro de 2012

Três caminhos para um novo paradigma cultural


“Três caminhos

1.No plano emocional, desenvolver a sim-patia e a com-paixão por todos os seres, mais além do círculo estreito dos seres próximos.

2.No plano intelectual, compreender a complexidade, interdependência e ecodependência dos sistemas que somos e dos sistemas onde vivemos.

3.No plano espiritual, questionar o egocentrismo e tratar de viver a partir de um «eu ecológico»”

- Jorge Riechmann, Interdependientes y Ecodependientes, 2012, p.404.

sábado, 3 de novembro de 2012

Abandonar o antropocentrismo

"As necessidades, desejos e caprichos dos seres humanos não são a única base para tomar decisões éticas. Creio que temos boas razões para abandonar o antropocentrismo exclusivo que pesou sobre demasiadas tradições morais no passado e reconhecer que os demais seres vivos têm, na mesma medida que nós, direito a existir e a levar uma boa vida. Na minha opinião, há-de ver-se no florescimento de todos os seres vivos, cada um deles com o seu conjunto de capacidades e vulnerabilidades intrínsecas, a sede primária do valor"

- Jorge Riechmann, Interdependientes y Ecodependientes. Ensayos desde la ética ecológica (y hacía ella), Proteu, 2012, p.256.