O mito fundamental da nossa cultura, que tem como complemento o mito de se haver libertado de mitos: o universo surgiu para que nele surgisse a vida que evoluiu para que no planeta Terra surgisse o homem que evoluiu para se tornar o dono e senhor da Terra, de todos os seres e um dia de todo o universo. O mito em que acreditam todos os que crêem não acreditar em mitos. O mito cuja encenação é a actual civilização. O problema é que esta encenação está a destruir o palco, os actores e a si própria...
Sugestão de leitura: Daniel Quinn, "Ismael. Como o mundo veio a ser o que é", Porto, Via Óptima, 2011, 3. edição.
PAN - UM NOVO PARADIGMA
Vivemos o fim de ciclo de um paradigma civilizacional esgotado, o paradigma antropocêntrico, cuja exacerbação nos últimos séculos aumentou a devastação do planeta, a perda da biodiversidade e o sofrimento de homens e animais. Impõe-se um novo paradigma, uma nova visão/vivência da realidade, ideias, valores e símbolos que sejam a matriz de uma nova cultura e de uma metamorfose mental que se expresse em todas as esferas da actividade humana, religiosa, ética, científica, filosófica, artística, pedagógica, social, económica e política. Esse paradigma, intemporal e novíssimo, a descobrir e recriar, passa pela experiência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Nesta visão holística da Vida, o ser humano não perde a sua especificidade, mas, em vez de se assumir como o dono do mundo, torna-se responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.
Herdando a palavra grega para designar o "Todo", bem como o nome do deus da natureza e dos animais, o PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza - incarna esse paradigma na sociedade e na política portuguesas.
O objectivo deste blogue é divulgar e fomentar o debate em torno de contributos diversos, contemporâneos e de todos os tempos, para a formulação deste novo paradigma, nas letras, nas artes e nas ciências.
Herdando a palavra grega para designar o "Todo", bem como o nome do deus da natureza e dos animais, o PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza - incarna esse paradigma na sociedade e na política portuguesas.
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quarta-feira, 15 de junho de 2011
O mito fundamental da nossa cultura
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civilização,
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homem,
mito
terça-feira, 17 de maio de 2011
Principais propostas do programa Político do PAN: 1 - Cultura
Iniciamos aqui a publicação das principais propostas apresentadas no Programa Político do PAN. Para mais desenvolvimentos: http://partidoanimaisnatureza.com/ficheiros/PAN_Prog_Pol_2011.pdf
1) A Cultura e a Educação devem ser áreas privilegiadas pelo Orçamento do Estado,
como decisivas para o presente e futuro da Nação, em detrimento de gastos sobredimensionados e desnecessários com as Forças Armadas e com obras públicas que
visem não o bem comum, mas apenas interesses particulares e a ostentação e propaganda
dos governos.
2) Promoção da Cultura como um dos factores fundamentais da formação dos cidadãos
e em todos os seus aspectos: não só tecnológica, mas também filosófica, científica,
literária e artística. As desvantagens da especialização excessiva devem ser
compensadas com a promoção da interdisciplinaridade.
3) Investimento na promoção de uma cultura de valores fundamentais da humanidade,
como a paz, a não-violência e o respeito pelo outro, extensivos não só aos homens,
mas também aos animais e à natureza. Disso depende um aumento da consciência
cívica e uma melhoria da sociedade humana.
4) Criação de um departamento no Ministério da Cultura, em estreita colaboração com
o Ministério da Educação, destinado a promover, sobretudo nas camadas mais jovens
e nos vários níveis de escolaridade, uma consciência ética e solidária igualmente
abrangente de homens, animais e natureza.
5) Extinção da secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura, pois a tauromaquia não é uma tradição nacional e consiste numa prática que contradiz os princípios elementares de uma cultura ética e não-violenta.
6) Promoção da cultura portuguesa e lusófona em Portugal e no mundo, destacando
também o contributo pioneiro de vários autores portugueses, como Antero de Quental,
Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, José Marinho, Eudoro
de Sousa e Agostinho da Silva, entre outros, para uma antecipação da actual consciência ecológica, bem como para a crítica do antropocentrismo e do especismo, propondo uma ética holística.
7) Promoção em Portugal e na comunidade lusófona dos valores ecológicos e de defesa
do valor intrínseco da natureza e de todos os seres vivos.
8) Promoção em Portugal e na comunidade lusófona, na linha da tradição universalista
da história e da cultura portuguesas, o conhecimento das múltiplas línguas e culturas
planetárias, com muitas das quais os Portugueses tiveram contactos pioneiros e
nas quais se podem encontrar paradigmas culturais complementares da tradição europeia-ocidental, frequentemente mais harmoniosos no que respeita à relação da
espécie humana consigo, com os seres vivos e com a natureza. Um português culto
e bem formado deve ter uma consciência multicultural e universalista, não apenas
cingida à cultura nacional, lusófona e europeia-ocidental.
9) Assumir Portugal como o país da multiculturalidade, do diálogo intercultural e inter-religioso, do ecumenismo e da paz, promovendo, sem parcialismos mas com
verdadeira abertura e universalismo, encontros internacionais entre líderes religiosos ou espirituais, ateus e agnósticos, assim como políticos e económicos, destinados à busca de mediação e resolução de conflitos, bem como a encontrar respostas para a resolução dos grandes desafios e questões com que se debate a humanidade no início do século XXI.
10) Fomento em Portugal de uma consciência cívica e ética formada no respeito de pessoas e instituições pela Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) e pela
Carta da Terra (1994). Fomos pioneiros na abolição da pena de morte e da escravatura
e sensibilizámos a comunidade internacional para o drama de Timor. Devemos
estar hoje à altura desta tradição e mobilizar-nos para os grandes desafios éticos,
culturais e civilizacionais do nosso tempo. Portugal deve posicionar-se sempre na
primeira linha da expansão da cultura e da consciência, da luta por uma sociedade
mais justa, da defesa dos valores humanos fundamentais e das causas humanitária,
animal e ecológica. Portugal deve tornar-se um País Ético em todos os domínios, o
que depende de um forte investimento cultural e educativo, sobretudo na formação
das novas gerações.
1) A Cultura e a Educação devem ser áreas privilegiadas pelo Orçamento do Estado,
como decisivas para o presente e futuro da Nação, em detrimento de gastos sobredimensionados e desnecessários com as Forças Armadas e com obras públicas que
visem não o bem comum, mas apenas interesses particulares e a ostentação e propaganda
dos governos.
2) Promoção da Cultura como um dos factores fundamentais da formação dos cidadãos
e em todos os seus aspectos: não só tecnológica, mas também filosófica, científica,
literária e artística. As desvantagens da especialização excessiva devem ser
compensadas com a promoção da interdisciplinaridade.
3) Investimento na promoção de uma cultura de valores fundamentais da humanidade,
como a paz, a não-violência e o respeito pelo outro, extensivos não só aos homens,
mas também aos animais e à natureza. Disso depende um aumento da consciência
cívica e uma melhoria da sociedade humana.
4) Criação de um departamento no Ministério da Cultura, em estreita colaboração com
o Ministério da Educação, destinado a promover, sobretudo nas camadas mais jovens
e nos vários níveis de escolaridade, uma consciência ética e solidária igualmente
abrangente de homens, animais e natureza.
5) Extinção da secção de tauromaquia no Conselho Nacional de Cultura, pois a tauromaquia não é uma tradição nacional e consiste numa prática que contradiz os princípios elementares de uma cultura ética e não-violenta.
6) Promoção da cultura portuguesa e lusófona em Portugal e no mundo, destacando
também o contributo pioneiro de vários autores portugueses, como Antero de Quental,
Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoaes, José Marinho, Eudoro
de Sousa e Agostinho da Silva, entre outros, para uma antecipação da actual consciência ecológica, bem como para a crítica do antropocentrismo e do especismo, propondo uma ética holística.
7) Promoção em Portugal e na comunidade lusófona dos valores ecológicos e de defesa
do valor intrínseco da natureza e de todos os seres vivos.
8) Promoção em Portugal e na comunidade lusófona, na linha da tradição universalista
da história e da cultura portuguesas, o conhecimento das múltiplas línguas e culturas
planetárias, com muitas das quais os Portugueses tiveram contactos pioneiros e
nas quais se podem encontrar paradigmas culturais complementares da tradição europeia-ocidental, frequentemente mais harmoniosos no que respeita à relação da
espécie humana consigo, com os seres vivos e com a natureza. Um português culto
e bem formado deve ter uma consciência multicultural e universalista, não apenas
cingida à cultura nacional, lusófona e europeia-ocidental.
9) Assumir Portugal como o país da multiculturalidade, do diálogo intercultural e inter-religioso, do ecumenismo e da paz, promovendo, sem parcialismos mas com
verdadeira abertura e universalismo, encontros internacionais entre líderes religiosos ou espirituais, ateus e agnósticos, assim como políticos e económicos, destinados à busca de mediação e resolução de conflitos, bem como a encontrar respostas para a resolução dos grandes desafios e questões com que se debate a humanidade no início do século XXI.
10) Fomento em Portugal de uma consciência cívica e ética formada no respeito de pessoas e instituições pela Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) e pela
Carta da Terra (1994). Fomos pioneiros na abolição da pena de morte e da escravatura
e sensibilizámos a comunidade internacional para o drama de Timor. Devemos
estar hoje à altura desta tradição e mobilizar-nos para os grandes desafios éticos,
culturais e civilizacionais do nosso tempo. Portugal deve posicionar-se sempre na
primeira linha da expansão da cultura e da consciência, da luta por uma sociedade
mais justa, da defesa dos valores humanos fundamentais e das causas humanitária,
animal e ecológica. Portugal deve tornar-se um País Ético em todos os domínios, o
que depende de um forte investimento cultural e educativo, sobretudo na formação
das novas gerações.
domingo, 20 de março de 2011
16 pontos para um novo paradigma de Cultura
1 – A origem etimológica reside na raiz indo-europeia kwel, que evoca a roda e o movimento de rotação, sendo daí que vem o sânscrito chakra e o latino colere, do qual procede o latino cultura, no sentido literal de “(re)colher” e “mover-se habilmente” no cultivo da terra e no sentido figurado de cultivar o espírito (“cultura animi”, em Cícero).
2 - O verbo colere possui os sentidos de cultivar, cuidar; ocupar-se de; honrar, respeitar; proteger, vigiar (como acções dos deuses); habitar, morar; granjear as graças de alguém.
3 - A cultura é inseparável de um movimento de rotação, circular e cíclico, que representa o dinamismo do mundo, da vida e da existência e implica o regressar constante à origem.
4 - A cultura supõe originariamente um cultivo atento, cuidadoso, respeitoso e protector, seja do lugar onde se habita, a terra e a natureza, seja da mente, que pode assumir a forma de um respeito religioso. Daí a proximidade entre cultura, agricultura e culto .
5 - É suposto que a cultura, fundada na compreensão das leis que regem os fenómenos e a vida no seu dinamismo e metamorfose cíclicos, seja a actividade pela qual se potencia toda a fecundidade da terra, da natureza e da mente, respeitando-as, cuidando-as e recolhendo os seus frutos, no reconhecimento do seu valor intrínseco (por vezes sagrado), sem a violência de as reduzir a um mero instrumento.
6 – A afinidade original entre cultura e agricultura sugere que numa e noutra se colhe o que se semeia, o que na cultura se aplica não só à relação do homem com a terra, mas também com a natureza em geral, com os seres vivos, humanos e não humanos, e consigo mesmo.
7 - Em função da cultura que praticar, com ou sem cuidado e respeito pela terra, pela natureza e pela mente, assim o homem colherá (de colere) frutos sãos ou doentes, assim o homem terá uma terra, uma natureza e uma mente sãs ou doentes.
8 – Não é uma cultura do cuidado e do respeito que tem predominado no presente (fim de) ciclo civilizacional, ao longo do qual a cultura humana, esquecendo as suas origens cósmicas e naturais e a sua radicação no comportamento dos próprios animais , cada vez mais se viu e valorizou como o processo de separação entre o homem, a natureza e os seres vivos.
9 – Os homens objectivam a natureza e os seres vivos, humanos e não-humanos, como exteriores a si e consideram-nos como adversários a vencer, dominando-os, domesticando-os e instrumentalizando-os para fins antropocêntricos que lhes negam qualquer valor intrínseco e os privam de consideração ética .
10 - Isto aconteceu sobretudo a partir da revolução mecanista do século XVII e da primeira e segunda revolução industrial, pensando-se estar em curso o progresso histórico e linear da humanidade em direcção ao “Paraíso” terrestre da abundância económica e do domínio científico-tecnológico sobre a natureza e a vida .
11 – A ilusão e as consequências desta atitude, agravada pela explosão demográfica, pelo aumento do potencial tecnológico e pelo capitalismo económico, produtivista e consumista, liberal ou (dito) socialista, são hoje dramaticamente visíveis em todo o planeta, na poluição e esgotamento dos recursos naturais, nas alterações climáticas, na destruição da biodiversidade, na exploração e massacre dos seres vivos, humanos e não humanos, e na d,egradação da qualidade de vida social, física e mental da humanidade.
12 - Esquecendo na sua arrogância ser inseparável da terra, da natureza e dos seres vivos - relaciona-se o latino homo (homem) com humus (solo, terra), de onde deriva “humildade” - , pervertendo o sentido originário da cultura - cultura de integração harmoniosa no mundo e não de desintegração violenta - , o homem re-colhe (colere) não os frutos salutares do cultivo amoroso da terra e do espírito, mas os efeitos destrutivos da sua própria violência, que hoje e a curto prazo põe em perigo a própria vida de largas camadas da população planetária.
13 – É a Hora urgente de recordar que, de acordo com a sua própria etimologia, enquanto dinamismo que implica o constante regresso à origem como condição evolutiva, a cultura humana tem de reassumir, sob risco de se autodestruir, a vocação originária de rodar em harmonia com as leis da natureza e da vida.
14 - Isto supõe e exige uma profunda transformação do actual paradigma mental e ético, mas também social, económico e político, que possa conduzir a uma nova civilização.
15 – O novo paradigma tem de se basear no respeito pelo valor intrínseco da natureza e de todas as formas de vida, bem como no reconhecimento dos direitos dos animais humanos e não humanos à vida e ao bem-estar. A humanidade tem de reaprender a viver de acordo com as leis fundamentais da natureza e da vida, nos domínios da saúde, da alimentação, da habitação, da educação e da vida espiritual, social, económica e política.
16 - Formular, expressar e viver de acordo com estas implicações é o desafio urgente que incumbe a pensadores, artistas, cientistas e religiosos, bem como a todos aqueles que queiram contribuir para preservar e regenerar uma cultura sã e autêntica nesta encruzilhada em que a barbárie a todos ameaça.
2 - O verbo colere possui os sentidos de cultivar, cuidar; ocupar-se de; honrar, respeitar; proteger, vigiar (como acções dos deuses); habitar, morar; granjear as graças de alguém.
3 - A cultura é inseparável de um movimento de rotação, circular e cíclico, que representa o dinamismo do mundo, da vida e da existência e implica o regressar constante à origem.
4 - A cultura supõe originariamente um cultivo atento, cuidadoso, respeitoso e protector, seja do lugar onde se habita, a terra e a natureza, seja da mente, que pode assumir a forma de um respeito religioso. Daí a proximidade entre cultura, agricultura e culto .
5 - É suposto que a cultura, fundada na compreensão das leis que regem os fenómenos e a vida no seu dinamismo e metamorfose cíclicos, seja a actividade pela qual se potencia toda a fecundidade da terra, da natureza e da mente, respeitando-as, cuidando-as e recolhendo os seus frutos, no reconhecimento do seu valor intrínseco (por vezes sagrado), sem a violência de as reduzir a um mero instrumento.
6 – A afinidade original entre cultura e agricultura sugere que numa e noutra se colhe o que se semeia, o que na cultura se aplica não só à relação do homem com a terra, mas também com a natureza em geral, com os seres vivos, humanos e não humanos, e consigo mesmo.
7 - Em função da cultura que praticar, com ou sem cuidado e respeito pela terra, pela natureza e pela mente, assim o homem colherá (de colere) frutos sãos ou doentes, assim o homem terá uma terra, uma natureza e uma mente sãs ou doentes.
8 – Não é uma cultura do cuidado e do respeito que tem predominado no presente (fim de) ciclo civilizacional, ao longo do qual a cultura humana, esquecendo as suas origens cósmicas e naturais e a sua radicação no comportamento dos próprios animais , cada vez mais se viu e valorizou como o processo de separação entre o homem, a natureza e os seres vivos.
9 – Os homens objectivam a natureza e os seres vivos, humanos e não-humanos, como exteriores a si e consideram-nos como adversários a vencer, dominando-os, domesticando-os e instrumentalizando-os para fins antropocêntricos que lhes negam qualquer valor intrínseco e os privam de consideração ética .
10 - Isto aconteceu sobretudo a partir da revolução mecanista do século XVII e da primeira e segunda revolução industrial, pensando-se estar em curso o progresso histórico e linear da humanidade em direcção ao “Paraíso” terrestre da abundância económica e do domínio científico-tecnológico sobre a natureza e a vida .
11 – A ilusão e as consequências desta atitude, agravada pela explosão demográfica, pelo aumento do potencial tecnológico e pelo capitalismo económico, produtivista e consumista, liberal ou (dito) socialista, são hoje dramaticamente visíveis em todo o planeta, na poluição e esgotamento dos recursos naturais, nas alterações climáticas, na destruição da biodiversidade, na exploração e massacre dos seres vivos, humanos e não humanos, e na d,egradação da qualidade de vida social, física e mental da humanidade.
12 - Esquecendo na sua arrogância ser inseparável da terra, da natureza e dos seres vivos - relaciona-se o latino homo (homem) com humus (solo, terra), de onde deriva “humildade” - , pervertendo o sentido originário da cultura - cultura de integração harmoniosa no mundo e não de desintegração violenta - , o homem re-colhe (colere) não os frutos salutares do cultivo amoroso da terra e do espírito, mas os efeitos destrutivos da sua própria violência, que hoje e a curto prazo põe em perigo a própria vida de largas camadas da população planetária.
13 – É a Hora urgente de recordar que, de acordo com a sua própria etimologia, enquanto dinamismo que implica o constante regresso à origem como condição evolutiva, a cultura humana tem de reassumir, sob risco de se autodestruir, a vocação originária de rodar em harmonia com as leis da natureza e da vida.
14 - Isto supõe e exige uma profunda transformação do actual paradigma mental e ético, mas também social, económico e político, que possa conduzir a uma nova civilização.
15 – O novo paradigma tem de se basear no respeito pelo valor intrínseco da natureza e de todas as formas de vida, bem como no reconhecimento dos direitos dos animais humanos e não humanos à vida e ao bem-estar. A humanidade tem de reaprender a viver de acordo com as leis fundamentais da natureza e da vida, nos domínios da saúde, da alimentação, da habitação, da educação e da vida espiritual, social, económica e política.
16 - Formular, expressar e viver de acordo com estas implicações é o desafio urgente que incumbe a pensadores, artistas, cientistas e religiosos, bem como a todos aqueles que queiram contribuir para preservar e regenerar uma cultura sã e autêntica nesta encruzilhada em que a barbárie a todos ameaça.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Nota para repensar o sentido da palavra Cultura
A primeira evidência que surge ao tentarmos precisar o sentido da palavra “cultura” é a dificuldade inerente a um conceito saturado de significados múltiplos , que ele próprio se revela como um produto histórico-cultural complexo e longamente elaborado, que ao ser usado em múltiplas acepções se torna afinal indefinido . Tal como acontece com outros conceitos fundamentais da cultura ocidental, torna-se necessário remontar à etimologia para o esclarecer.
A origem da palavra encontra-se na raiz indo-europeia kwel, que reencontramos no sânscrito chakra, o qual designa uma roda ou disco, seja a roda da lei universal (dharma), a ronda das existências condicionadas (samsāra) ou a dos centros de energia subtil no corpo humano. A cultura está assim ligada à imagem dinâmica da roda, que no plano material foi uma descoberta maior da humanidade e no plano simbólico figura a lei que rege todas as coisas, regulando a transformação dos seres e da energia vital que os anima. A mesma raiz origina o grego kuklos, que designa toda a forma redonda e de onde procedem o inglês wheel (roda) e o português ciclo. Em latim, é ainda a raiz originária do verbo colere, de onde procede directamente o latino cultura, no sentido literal de “mover-se habilmente” no cultivo da terra e no sentido figurado de cultivar o espírito (“cultura animi”, em Cícero), cortejar alguém ou cultuar uma divindade. Com efeito, o verbo colere possui já os sentidos de cultivar, cuidar; ocupar-se de; honrar, respeitar; proteger, vigiar (como acções dos deuses); habitar, morar; granjear as graças de alguém.
Repensada a partir da sua origem etimológica, a cultura surge assim inseparável, por um lado, de um movimento de rotação, circular e cíclico, que representa o dinamismo do mundo, da vida e da existência e implica o regressar constante à origem, mas não necessariamente a repetição ou o eterno retorno do mesmo (cf. Nietzsche), podendo depender desse regresso um progresso qualitativo, como acontece no “ciclo de estudos” que faz avançar o aluno. Por outro lado, a cultura supõe originariamente um cultivo atento, cuidadoso, respeitoso e protector, seja do lugar onde se habita, a terra e a natureza, seja da mente, que pode assumir a forma de um respeito religioso. Daí a proximidade entre cultura, agricultura e culto . É suposto que a cultura, fundada na compreensão das leis que regem os fenómenos e a vida no seu dinamismo e metamorfose cíclicos, seja a actividade pela qual se potencia toda a fecundidade da terra, da natureza e da mente, respeitando-as, cuidando-as e recolhendo os seus frutos, no reconhecimento do seu valor intrínseco (por vezes sagrado), sem a violência de as reduzir a um mero instrumento.
Como é evidente, não é isso que tem predominado no presente ciclo civilizacional, ao longo do qual a cultura humana, esquecendo as suas origens no comportamento dos próprios animais , cada vez mais se entendeu e valorizou como o processo de separação entre o homem, a natureza e os seres vivos, primeiro objectivando-os como exteriores a si e depois vendo-os como um obstáculo ou adversário a vencer, lutando para deles se libertar, dominando-os, domesticando-os e instrumentalizando-os para fins antropocêntricos que lhes negam qualquer valor intrínseco e os privam de consideração ética . O homem assumiu uma postura bélica e dominadora, traduzida por exemplo na designação do “campo”, pelos romanos, como ager, ou seja, campo de acção (agere), objecto feminilizado de uma dominação (imperium) viril (de vir, homem, macho) pelo senhor (dominus) da casa (domus) . Foi isto que, sobretudo a partir da revolução mecanista do século XVII e com a primeira e segunda revolução industrial, se viu como o progresso histórico e linear da humanidade em direcção ao Paraíso terrestre da abundância económica e do domínio científico-tecnológico sobre a natureza e a vida .
As consequências desta atitude, agravada pela explosão demográfica, pelo aumento do potencial tecnológico e pelo capitalismo económico, produtivista e consumista, liberal ou (dito) socialista, são hoje dramaticamente visíveis em todo o planeta, patentes na poluição e esgotamento dos recursos naturais, nas alterações climáticas, na destruição da biodiversidade, na exploração e massacre dos seres vivos, humanos e não humanos, e na degradação da qualidade de vida social, física e mental da humanidade. Esquecendo na sua arrogância ser inseparável da terra, da natureza e dos seres vivos - relaciona-se o latino homo (homem) com humus (solo, terra), de onde deriva “humildade” - , pervertendo o sentido originário da cultura - cultura de integração harmoniosa no mundo e não de desintegração violenta - , o homem passa a re-colher (colere), não os frutos benéficos e salutares do cultivo amoroso da terra e do espírito, mas os efeitos destrutivos da sua própria violência, que hoje arriscam tornar a vida de largas camadas da população, dentro de escassas dezenas de anos, insustentável no planeta.
Parece ser a hora urgente de recordar que, de acordo com a sua própria etimologia, enquanto dinamismo que implica o constante regresso à origem como condição evolutiva, a cultura humana tem de reassumir, sob risco de se autodestruir, a vocação originária de rodar em harmonia com as leis da natureza e da vida e reorientar assim a história dos homens para as fontes onde se pode regenerar . Isto supõe e exige uma profunda transformação do actual paradigma mental e ético, mas também social, económico e político, que possa conduzir a uma nova civilização. A sua base inquestionável tem de ser o respeito pelo valor intrínseco da natureza e de todas as formas de vida, bem como o reconhecimento dos direitos dos animais humanos e não humanos à vida e ao bem-estar. A humanidade tem de reaprender a viver de acordo com as leis fundamentais da natureza e da vida, com todas as implicações nos domínios da saúde, da alimentação, do urbanismo, da educação e da vida espiritual, social, económica e política. Formular, expressar e viver de acordo com estas implicações é o desafio e a tarefa que incumbe a pensadores, artistas, cientistas e religiosos, bem como a todos aqueles que queiram contribuir para preservar e regenerar a autêntica cultura nesta encruzilhada em que a barbárie a todos nos ameaça.
A origem da palavra encontra-se na raiz indo-europeia kwel, que reencontramos no sânscrito chakra, o qual designa uma roda ou disco, seja a roda da lei universal (dharma), a ronda das existências condicionadas (samsāra) ou a dos centros de energia subtil no corpo humano. A cultura está assim ligada à imagem dinâmica da roda, que no plano material foi uma descoberta maior da humanidade e no plano simbólico figura a lei que rege todas as coisas, regulando a transformação dos seres e da energia vital que os anima. A mesma raiz origina o grego kuklos, que designa toda a forma redonda e de onde procedem o inglês wheel (roda) e o português ciclo. Em latim, é ainda a raiz originária do verbo colere, de onde procede directamente o latino cultura, no sentido literal de “mover-se habilmente” no cultivo da terra e no sentido figurado de cultivar o espírito (“cultura animi”, em Cícero), cortejar alguém ou cultuar uma divindade. Com efeito, o verbo colere possui já os sentidos de cultivar, cuidar; ocupar-se de; honrar, respeitar; proteger, vigiar (como acções dos deuses); habitar, morar; granjear as graças de alguém.
Repensada a partir da sua origem etimológica, a cultura surge assim inseparável, por um lado, de um movimento de rotação, circular e cíclico, que representa o dinamismo do mundo, da vida e da existência e implica o regressar constante à origem, mas não necessariamente a repetição ou o eterno retorno do mesmo (cf. Nietzsche), podendo depender desse regresso um progresso qualitativo, como acontece no “ciclo de estudos” que faz avançar o aluno. Por outro lado, a cultura supõe originariamente um cultivo atento, cuidadoso, respeitoso e protector, seja do lugar onde se habita, a terra e a natureza, seja da mente, que pode assumir a forma de um respeito religioso. Daí a proximidade entre cultura, agricultura e culto . É suposto que a cultura, fundada na compreensão das leis que regem os fenómenos e a vida no seu dinamismo e metamorfose cíclicos, seja a actividade pela qual se potencia toda a fecundidade da terra, da natureza e da mente, respeitando-as, cuidando-as e recolhendo os seus frutos, no reconhecimento do seu valor intrínseco (por vezes sagrado), sem a violência de as reduzir a um mero instrumento.
Como é evidente, não é isso que tem predominado no presente ciclo civilizacional, ao longo do qual a cultura humana, esquecendo as suas origens no comportamento dos próprios animais , cada vez mais se entendeu e valorizou como o processo de separação entre o homem, a natureza e os seres vivos, primeiro objectivando-os como exteriores a si e depois vendo-os como um obstáculo ou adversário a vencer, lutando para deles se libertar, dominando-os, domesticando-os e instrumentalizando-os para fins antropocêntricos que lhes negam qualquer valor intrínseco e os privam de consideração ética . O homem assumiu uma postura bélica e dominadora, traduzida por exemplo na designação do “campo”, pelos romanos, como ager, ou seja, campo de acção (agere), objecto feminilizado de uma dominação (imperium) viril (de vir, homem, macho) pelo senhor (dominus) da casa (domus) . Foi isto que, sobretudo a partir da revolução mecanista do século XVII e com a primeira e segunda revolução industrial, se viu como o progresso histórico e linear da humanidade em direcção ao Paraíso terrestre da abundância económica e do domínio científico-tecnológico sobre a natureza e a vida .
As consequências desta atitude, agravada pela explosão demográfica, pelo aumento do potencial tecnológico e pelo capitalismo económico, produtivista e consumista, liberal ou (dito) socialista, são hoje dramaticamente visíveis em todo o planeta, patentes na poluição e esgotamento dos recursos naturais, nas alterações climáticas, na destruição da biodiversidade, na exploração e massacre dos seres vivos, humanos e não humanos, e na degradação da qualidade de vida social, física e mental da humanidade. Esquecendo na sua arrogância ser inseparável da terra, da natureza e dos seres vivos - relaciona-se o latino homo (homem) com humus (solo, terra), de onde deriva “humildade” - , pervertendo o sentido originário da cultura - cultura de integração harmoniosa no mundo e não de desintegração violenta - , o homem passa a re-colher (colere), não os frutos benéficos e salutares do cultivo amoroso da terra e do espírito, mas os efeitos destrutivos da sua própria violência, que hoje arriscam tornar a vida de largas camadas da população, dentro de escassas dezenas de anos, insustentável no planeta.
Parece ser a hora urgente de recordar que, de acordo com a sua própria etimologia, enquanto dinamismo que implica o constante regresso à origem como condição evolutiva, a cultura humana tem de reassumir, sob risco de se autodestruir, a vocação originária de rodar em harmonia com as leis da natureza e da vida e reorientar assim a história dos homens para as fontes onde se pode regenerar . Isto supõe e exige uma profunda transformação do actual paradigma mental e ético, mas também social, económico e político, que possa conduzir a uma nova civilização. A sua base inquestionável tem de ser o respeito pelo valor intrínseco da natureza e de todas as formas de vida, bem como o reconhecimento dos direitos dos animais humanos e não humanos à vida e ao bem-estar. A humanidade tem de reaprender a viver de acordo com as leis fundamentais da natureza e da vida, com todas as implicações nos domínios da saúde, da alimentação, do urbanismo, da educação e da vida espiritual, social, económica e política. Formular, expressar e viver de acordo com estas implicações é o desafio e a tarefa que incumbe a pensadores, artistas, cientistas e religiosos, bem como a todos aqueles que queiram contribuir para preservar e regenerar a autêntica cultura nesta encruzilhada em que a barbárie a todos nos ameaça.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
"...cada vez mais, o animal assume em etologia uma figura de sujeito"
"Os primeiros capítulos deste livro vão no encalço das inteligências do animal e discutem uma imensa literatura científica para saber se é legítimo falar de comportamentos culturais no animal. Uma revolução oculta daí se desprende: cada vez mais, o animal assume em etologia uma figura de sujeito. Não medimos necessariamente a ruptura radical que se estabelece assim nas ciência do animal e a maioria dos etólogos persistem em nada ver ou, mais exactamente, a fazer como se"
- Dominique Lestel, Les origines animales de la culture, Paris, Flammarion, 2001, p.238.
- Dominique Lestel, Les origines animales de la culture, Paris, Flammarion, 2001, p.238.
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