PAN - UM NOVO PARADIGMA

Vivemos o fim de ciclo de um paradigma civilizacional esgotado, o paradigma antropocêntrico, cuja exacerbação nos últimos séculos aumentou a devastação do planeta, a perda da biodiversidade e o sofrimento de homens e animais. Impõe-se um novo paradigma, uma nova visão/vivência da realidade, ideias, valores e símbolos que sejam a matriz de uma nova cultura e de uma metamorfose mental que se expresse em todas as esferas da actividade humana, religiosa, ética, científica, filosófica, artística, pedagógica, social, económica e política. Esse paradigma, intemporal e novíssimo, a descobrir e recriar, passa pela experiência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Nesta visão holística da Vida, o ser humano não perde a sua especificidade, mas, em vez de se assumir como o dono do mundo, torna-se responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

Herdando a palavra grega para designar o "Todo", bem como o nome do deus da natureza e dos animais, o PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza - incarna esse paradigma na sociedade e na política portuguesas.

O objectivo deste blogue é divulgar e fomentar o debate em torno de contributos diversos, contemporâneos e de todos os tempos, para a formulação deste novo paradigma, nas letras, nas artes e nas ciências.

quarta-feira, 20 de março de 2013

"Em grego existem duas palavras para dizer "vida": "biós" e "zoé"

"Em grego existem duas palavras para dizer "vida": "biós" e "zoé". "Biós" é uma das formas possíveis da vida integral. Foi criada a partir da diversificação das espécies e da individuação de membros no interior de cada espécie. "Biós" está no reino da individualidade e da diversidade. "Zoé" é a vida que nos atravessa a todos. A nossa singularidade biológica é apenas uma das possíveis manifestações de "zoé". Nas suas fases mais imaturas, o nosso pequeno eu aferra-se à vida à custa de exterminar outras formas de existência. Crescer em consciência significa perceber que todos participamos da mesma vida (zoé) que apareceu na terra e que transcende o próprio planeta. Quando ficamos reduzidos à nossa dimensão "biológica" individual, apenas lutamos pela nossa sobrevivência - pessoal ou grupal, que não é mais do que a extensão do nosso ego - , esquecendo que a nossa existência individual e de espécie participa de uma realidade e de um dom muito maiores que procedem de um fundo multiforme, transtemporal e infinito cujas manifestações somos chamados a venerar, cuidar e servir, em vez de possuir, dominar ou submeter"

- Javier Melloni, Hacia un Tiempo de Síntesis, Barcelona, Fragmenta Editorial, 2011, p.222.

terça-feira, 19 de março de 2013

A fraternidade original segundo Agostinho da Silva



"Como se sabe, os gregos possuíam, com muitos outros povos da Antiguidade, a tradição de que em tempos remotos tinham os homens vivido num estado de perfeita inocência e numa felicidade só comparável à dos deuses; tratavam-se todos como irmãos, alimentavam-se de frutos das árvores. Desconheciam as disputas e a guerra; havia entre eles e a natureza uma completa comunhão, a tal ponto que nem mesmo distinguiam entre si próprios e o mundo que os rodeava; e poderiam ter prosseguido nesta existência beatífica se não se tivesse dado uma corrupção dos costumes, se da Idade do Ouro se não tivesse passado para a Idade de Ferro, a actual, em que todas as aberrações se tornaram normais na humanidade"

– Agostinho da Silva, A Comédia Latina [1952], in Estudos sobre Cultura Clássica, p. 301.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

"Quando aprendermos a ser compassivos para todos os animais, isso incluirá a Humanidade. A compaixão facilmente atravessa a fronteira das espécies"

‎"Algumas pessoas perguntam: "Porque é que está a trabalhar para os animais, quando há tantas pessoas que precisam de ajuda?" A resposta é simples: Muitas pessoas que trabalham para os animais pelo mundo fora também trabalham altruistamente para as pessoas. Gostar de animais não significa gostar menos dos humanos. A compaixão origina compaixão.

- Marc Bekoff

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Uma economia "que toma conta da terra, das plantas, dos animais, dos homens, de tudo"

"(…) É uma economia do trabalho, da produção, (…) que toma conta da terra, das plantas, dos animais, dos homens, de tudo"

- Agostinho da Silva, Vida Conversável.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

As causas animal, humana e ambiental são uma só causa

O movimento de defesa dos direitos dos animais é uma extensão natural e irrecusável do movimento de defesa dos direitos humanos. É por isso que, do mesmo modo que não é coerente defender os direitos humanos sem defender os direitos dos animais, também não faz sentido defender os dos animais sem defender os dos humanos. O movimento de defesa dos animais não pode isolar-se e abandonar o projecto de uma sociedade mais justa e equitativa para todos, humanos e não humanos, que por sua vez não pode esquecer a defesa dos ecossistemas e da Terra, da qual todos os seres vivos igualmente dependem. E isso passa por uma alternativa de fundo ao modelo dominante de crescimento económico, que nega o valor intrínseco de todas as formas de vida, humanas e não humanas, bem como dos recursos naturais, convertendo-os em meros objectos e matérias-primas ao serviço do maior lucro possível para um pequeno número de indivíduos e corporações. O planeta e os seus habitantes não aguentam mais isto.

É também por isso que chegou a hora de integrar as lutas sectoriais num mais amplo Movimento, de libertação global dos viventes, humanos e não humanos, e da Terra, das garras do neoliberalismo selvagem. Urge não separar as causas animal, humana e ambiental, que na verdade são uma só. É necessário subordinar a economia à política, a política à ética e a ética a uma nova cultura, inspirada por um novo paradigma, o da interconexão de todos os seres, sencientes, viventes e existentes, o da interdependência de patas, asas, mãos, barbatanas, folhas, ares, mares, rios e terra: o paradigma da grande fraternidade cósmica. E isso é Já. A Hora é Agora.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Proteger a diversidade cultural e biológica da biopirataria




“A biopirataria é o “Descobrimento” colombiano 500 anos após Colombo. As patentes são ainda os meios de proteger esta pirataria da riqueza dos povos não-ocidentais como um direito dos poderes ocidentais.

Mediante as patentes e a engenharia genética, estão a estabelecer-se novas colónias. A terra, as florestas, os rios, os oceanos e a atmosfera foram todos colonizados, corroídos e poluídos. O capital tem agora de procurar novas colónias para invadir e explorar para a sua futura acumulação. Estas novas colónias são, na minha visão, os espaços interiores dos corpos de mulheres, plantas e animais. Resistir à biopirataria é resistir à colonização final da própria vida – do futuro da evolução tal como do futuro das tradições não-ocidentais de se relacionar com a natureza e de a conhecer. É uma luta para proteger a liberdade evolutiva de diferentes espécies. É uma luta para proteger a liberdade evolutiva de diferentes culturas. É uma luta para conservar a diversidade tanto cultural como biológica”

- Vandana Shiva, Biopiracy. The Plunder of Nature and Knowledge [Biopirataria. A pilhagem da natureza e do conhecimento], Dartington / London, Green Books / Gaia Foundation, 1998, p.11.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Gandhi e a biocracia

“Gandhi concebeu uma nova trindade para realizar a sua visão de uma nova ordem social não-violenta. Chamou-lhe Sarvodaya, Swaraj e Swadeshi.

O primeiro [princípio] da sua trindade foi Sarvodaya, “a elevação de todos”. “Todos se erguem” – não uns poucos, como no capitalismo, nem sequer o maior bem do maior número, como no socialismo, mas cada um e todos devem ser cuidados. Isso é Sarvodaya. O sistema ocidental de governo baseia-se na regra da maioria e chama-se democracia. Isto não era suficientemente bom para Gandhi. Ele não queria nenhuma divisão entre a maioria e a minoria. Ele queria servir os interesses de todos. A democracia também se limita a cuidar dos interesses dos seres humanos. A democracia funcionando com o capitalismo favorece os poucos que possuem capital. A democracia com o socialismo favorece a maioria, mas limita-se ainda aos humanos. Sarvodaya inclui o cuidado da Terra – dos animais, das florestas, dos rios e do solo. A visão de Gandhi é melhor contida no conceito de biocracia do que no de democracia”

- Satish Kumar, Spiritual Compass, The Three Qualities of Life, Foxhole, Green Books, 2007, p.111.